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Nacional
Moradores de Casa Lata abandonados pelas autoridades
Data de Publicação: 2012-06-08

Casa Lata (na cidade da Praia) é considerado um bairro problemático, onde falta quase tudo. Os seus moradores, na maioria provenientes do interior da ilha de Santiago e do Fogo, consideram-se abandonados e esquecidos pelas autoridades.

Tomé Barros (carinhosamente tratado por Nhu Tomé), 85 anos, natural da ilha do Fogo, reside em Casa Lata desde 1985. "Antigamente, na época mais quente do ano, as pessoas dormiam de portas e janelas abertas sem nenhum tipo de receio, mas agora, mesmo dentro de casa, com porta e janelas trancadas ninguém se sente seguro. Actualmente, ninguém arrisca sair na rua depois das 20 horas porque corre o risco de ser agredido ou assaltado, tudo por culpa da delinquência juvenil", conta Nhu Tomé.

Barros afirma que é necessário que os jovens ganhem gosto pelo trabalho. "Se sairmos à rua podemos ver muitos imigrantes vindos da costa ocidental africana a trabalhar na abertura de valas e na construção civil, os jovens cabo-verdianos, esses, poderiam aproveitar essas oportunidades, em vez de ficarem sentados na rua ou na bandidagem", desafia Nhu Tomé.

Luís dos Santos Évora, 43 anos, é um outro cidadão que vive no bairro há 39 anos. Nesse tempo considera que houve avanços e recuos. "Em termos físicos, a imagem do bairro melhorou bastante porque antigamente a maioria das casas eram feitas de chapas de bidões e agora são de muro e as ruas também foram calcetadas. Mas a insegurança tomou conta do bairro, de tal forma que agora as pessoas sentem receio de sair à rua, mesmo de dia, com medo de serem assaltadas".

Conforme Luís dos Santos, as autoridades devem realizar no bairro acções de formação para os jovens e mulheres chefes de família, à semelhança do que se verificou no bairro Brasil, Achada de Santo António. "Queremos que as autoridades municipais venham visitar o bairro para identificar as dificuldades e as necessidades das famílias e encontrarem a melhor solução para os nossos problemas", desafia Barros.

FALTA DE INFRA-ESTRUTURAS

Etelmina Paloma dos Santos, 32 anos, auxiliar técnica de farmácia, é uma das poucas pessoas do bairro que possui um emprego fixo. Ela afirma que, apesar de ficar nos arredores do Palmarejo, Casa Lata continua esquecida e abandonada pelas autoridades.

"Aqui não existe nenhuma infra-estrutura para os jovens do bairro ocuparem o seu tempo livre, nem espaço para as crianças do bairro brincarem. A maioria dos jovens abandonam escola cedo por falta de condições financeiras, há casas com mais de oito membros de família e todos estão desempregados. Há muitos dos chefes de família trabalham na Lixeira Municipal e na extracção de jorra no Monte Vermelho", lamenta Dos Santos.

Etelmina defende que é preciso uma intervenção urgente para combater o alcoolismo e o consumo de drogas e outros males sóciais no bairro. "Precisamos pelo menos de uma placa desportiva para os jovens se divertirem, o único espaço social que existe aqui é um jardim infantil mas funciona com muita dificuldade devido à falta de meios".

Casa Lata dispõe de um jardim infantil construído na década de 90 e actualmente atende cerca de 30 crianças. Conforme a monitora e responsável pelo "Jardim Nova Esperança de Casa Lata", Carlita dos Reis, o jardim está a precisar de quase tudo, desde cozinha, ligação de água, energia e equipamentos básicos para as crianças brincarem, nomeadamente escorrega e baloiço que estão todos danificados devido ao vandalismo de alguns.

Carlita critica também a atitude de certos moradores que colocam lixo e dejectos de animais nas proximidades do jardim, o que constitui um perigo para a saúde pública das crianças devido ao mau cheiro que isso provoca, sobretudo quando faz muito calor.

IMPOSSIBILIDADE DE REABILITAÇÃO

O director das Infra-Estruturas da Câmara Municipal da Praia, Jairson Varela, considera que a intervenção e a recuperação de Casa Lata é uma tarefa muito difícil até porque não há espaço suficiente para a construção de nenhum tipo de infra-estrutura social devido à construção clandestina e de forma desordenada.

Conforme Varela, para efectuar uma recuperação de Casa Lata seria necessário desalojar os moradores e fazer uma intervenção de fundo construindo casas de forma mais organizada e só depois voltar a colocá-los no bairro, o que é manifestamente impossível dado que a CMP não dispõe de verba suficiente para uma intervenção do género. "Essas situações complexas devem servir como exemplo que não se deve construir de forma clandestina e desorganizada", afirma Varela.

PROJECTOS

No entanto, Jairson Varela revela que já existe um projecto da CMP, do Governo e do Habitat África (uma ONG) para fazer ligação de água ao domicílio no bairro. Em relação às infra-estruturas afirma que a edilidade está a construir algumas infra-estruturas sociais, nomeadamente um campo de futebol sete, em Fonton, com relva artificial que poderá servir os jovens do bairro de Casa Lata e Fundo Cobon e outros bairros próximo.

"A ideia da CMP é construir infra-estruturas com impacto social; futuramente, iremos trabalhar no sentido de realizar intercâmbio entre os jovens e desenvolver uma campanha de unidade social entre os moradores dos bairros circundante e acabar com as rixas existentes".

Conforme Jairson Varela, a edilidade tem em curso a construção de um centro infanto-juvenil, mas as obras estão paradas por motivos financeiros. "Trata-se de uma infra-estrutura com espaço para aconselhamento dos jovens e formações no domínio da música, juntamente com o pessoal da banda municipal pensamos ministrar aulas de música gratuitamente aos jovens do bairro e arredores".

Varela acrescenta que a CMP vai, mesmo assim, trabalhar no sentido de recuperar algumas infra-estruturas existentes em Casa Lata.

Fonte: A Nação

Funco" - Habitação tradicional difundida nas ilhas de Santiago, Fogo e Maio, com origem na África Continental, cuja construção é em pedra na forma circular com cobertura cónica em palha e sem divisórias internas.