A ciência ou está ou devia estar em todos os lugares e ser a base que sustenta as nossas acções. Isto não serve, somente, para questões de saúde, energias renováveis ou reciclagem. Ela devia estar, também, no sector da construção civil, e o que a realidade mostra não é uma verdade em Cabo Verde.
Um olhar mais atento para as construções feitas, por exemplo, na cidade da Praia, revela que no projecto arquitectónico de cada obra não têm sido levadas em conta questões básicas, como iluminação e ventilação.
"Uma boa arquitectura é, na sua base, uma arquitectura sustentada". Quem o diz é a arquitecta Patrícia Anahory, que aponta como elementos essenciais dessa sustentabilidade questões básicas como, atenção a soluções de iluminação e ventilação naturais. Além disso, destaca a mesma técnica, há que ter em conta a importância de se utilizar os materiais locais na execução de uma obra.
É verdade que, em termos de materiais, Cabo Verde depara-se com uma limitação de recursos locais, que segundo Anahory, acabou por fazer com que a opção mais disponível seja o cimento. "Mas mesmo com esse material é possível fazer melhor, recorrendo-se por exemplo, a soluções de sombreamento, não se fazendo laje de betão sem protecção, construindo-se edifícios com pé direito mais alto".
Além de garantirem, de certa forma, a sustentabilidade da construção, sobretudo no capítulo de poupança de energia, tanto para iluminação quanto para se ter uma temperatura amena, essas opções "não trarão, necessariamente, mais custos para a obra". Paralelamente a isso, é preciso apostar em novas técnicas de construção como também nas tradicionais que tenham, igualmente, impacto a nível da qualidade e sustentabilidade do projecto.
Neste capítulo, Patrícia Anahory destaca estudos que têm sido feitos com o solocimento, uma técnica de obtenção de um material básico para a construção, o tijolo, que utiliza terra arenosa e pouca água. Havendo já na capital umas poucas construções que utilizaram essa técnica, que pode reduzir o custo da construção e a utilização de matérias-primas, a nossa entrevistada destaca, entretanto, que nessa matéria ainda há falta de estudos sobre o custo-benefício, testes do material, para que as pessoas apostem nessa opção.
Paralelamente a isso, um trabalho que por si só não é fácil, "num país de pouca ciência", há que se ter em conta as opções do cliente dos projectos de arquitectura. Porque nem sempre o que o cliente quer, que acha mais desejável, é aquilo que torna uma obra sustentável. Optimista, Anahory diz que, aqui também, o arquitecto pode jogar um "papel pedagógico", conciliando "interesse do cliente e qualidade do projecto".
Mas enquanto a ciência não ganha espaço neste sector, há sempre formas, quase empíricas, de se fazer melhor em termos de construção. Nessa matéria a nossa entrevistada fala da importância de se adaptar qualquer projecto às condições locais. Isto em benefício do resultado final e também do frágil equilíbrio ambiental afectado, quotidianamente, pela busca por matérias-primas que o sector da construção exige.
Reciclagem e poupança
Se, em linhas gerais, a preocupação em se investir em ciência ainda não chegou ao sector da construção civil, já há casos a indicarem que este é o caminho. Um exemplo disso é a Escola de Hotelaria e Turismo de Cabo Verde (EHTCV), onde a preocupação com questões como orientação do projecto, a iluminação e ventilação são claras.
Mais do que isso, o seu funcionamento inclui, também, a reutilização de águas residuais, nomeadamente dos lavatórios. Ali, dez por cento da água utilizada é reciclada e reutilizada, através de um processo de "tratamento biológico", segundo o técnico do sector, Bruno Gomes.
Para tal, a escola tem um sistema que inclui um depósito que recebe a água do lavatório, de onde essa água é bombeada para um tanque de purificação. Nesse tanque, há um filtro que retira o sabão da água que, no final do processo, recebe lixívia. A fase final é o envio dessa água para as casas de banho da escola, onde será utilizada somente nos autoclismos.
Paralelamente a isso, e no que se refere às águas com gordura, a escola também possui um sistema com o qual retiram a gordura da água para depois lançá-la, mais limpa, no sistema de esgoto. São apostas possíveis porque, desde a estruturação do projecto se pensou na sustentabilidade da construção. O que significa menos impacto do funcionamento da EHTCV no ambiente e poupança de recursos, tanto a nível de iluminação, quanto de ventilação e de utilização de água.
Fonte: A Nação