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Paulo Moreira. Chicala, Luanda e Arquitectura
Data de Publicação: 2012-06-21

Paulo Moreira, arquitecto português, foi distinguido com o Prémio Távora.Arquitectura não é, apenas, a construção de prédios ou outro tipo de edifícios. Esta actividade contempla muito mais que isso. Ou, pelo menos, devia.

Paulo Moreira, arquitecto português que tem desenvolvido um trabalho topográfico no bairro da Chicala, esteve à conversa com a África Today e falou-nos das temporadas vividas no musseque. Este projecto valeu-lhe a conquista do Prémio Távora, distinção feita em Portugal para trabalhos realizados na área da Arquitectura.

“Esta viagem surge no seguimento de uma investigação que já está em curso e que tem a ver com o meu doutoramento em Londres, na London Metropolitan University. Já passei dois períodos de um mês na Chicala. Um em 2010 e outro em 2011. Agora, terei de lá regressar novamente para finalizar o que iniciei”. A conversa com Paulo Moreira começa desta forma mas, ciente que é necessária mais informação, contínua. “A ideia de fazer este trabalho deu-se em 2008, ainda durante o meu mestrado. Cada estudante tinha de escolher uma cidade como caso de estudo. Escolhi Luanda apesar de nunca lá ter estado até àquela data. Falava-se imenso da capital angolana naquela altura e isso fascinava-me”, recorda.

Do mestrado para o doutoramento, sempre em Londres, o arquitecto foi convidado a dar continuidade ao projecto africano. Moreira, ávido de conhecer a principal cidade do país, aceitou o repto e fez as malas rumo ao Aeroporto 4 de Fevereiro. “Defini como prioridade encontrar na cidade um local que pudesse ser alvo de análise. Escolhi a Chicala por ser uma zona de construção informal, mas central, perto da Baía de Luanda. Trata-se de uma localidade com uma ligação clara e directa com a cidade, bem como com a sua parte histórica. Quis agarrar e abordar este diálogo”, justifica.

Relativamente à adaptação a um meio social distinto do seu normal habitat, o vencedor do Prémio Távora é taxativo: “adapto-me com facilidade às mais diferentes realidades!”. “Tenho vivido na Chicala e é lá que vou continuar sempre que for a Angola. Vivi com uma família e isso fez com que absorvesse toda a realidade do dia-a-dia, rotina e hábitos da Chicala. Esta experiência foi muito rica para o meu trabalho”, afiança. Ainda no mesmo registo, Moreira refere que “mais que um simples observador do planeamento urbano ou de construções”, efectuou uma fotografia real daquele contexto”.

A finalizar a temática adaptação, o arquitecto acrescenta: “há dias ou semanas mais complicados devido aos problemas de água e luz, mas são particularidades perfeitamente ultrapassáveis!”.

Arquitectura e a consciência social
Para Paulo Moreira, a consciência social de um arquitecto é uma das características mais relevantes da profissão. Cingir-se às linhas do que é ensinado academicamente é, diz, “prejudicial”. “Devemos, acima de tudo, servir o cidadão. O problema actual passa pela atitude de muitos profissionais que encerram, em si mesmos, os seus trabalhos e isso acontece muito na arquitectura contemporânea”, critica, acrescentando que “os projectos são realizados apenas dentro dos limites da disciplina”.

Em contraponto, o arquitecto prefere traçar um caminho diferente. “Estou mais interessado no contrário, ou seja, fazer chegar à arquitectura os vários contextos existentes. Nas ruas da Chicala, por exemplo, observa-se imensa criatividade, nomeadamente na forma como se reutilizam materiais das formas mais inesperadas…há uma criatividade latente que tem muito potencial e que se adapta muito bem ao meio-ambiente existente”, elogia.

Luanda e o seu estilo
Presença relativamente assídua na capital angolana, Moreira tornou-se um espectador privilegiado de toda a evolução arquitectónica dos últimos anos. Imperativo, portanto, perceber, junto de um profissional da área, como observa o que está a ser “erguido” em Luanda. “Todos os dias aparecem edifícios novos e essa transformação na imagem da cidade é notória a olho nu. Tudo muda a uma velocidade estonteante! Porém, a ideia que tenho é que algum património está a sofrer com isso, já que as construções novas, muitas vezes, não respeitam as mais antigas e que já fazem parte da história da região”, diz.

Por outro lado, frisa, existe um desconhecimento do terreno que tem prejudicado a capital angolana. “Fala-se na reconstrução de Luanda, mas há um grande desconhecimento da arquitectura local. Os arranha-céus não são o traço que marca a região, são modelos replicados em outras metrópoles”, alerta.

Com a aplicação da arquitectura na ponta da língua, Paulo Moreira passa para o ensino da disciplina em Angola. Segundo o profissional, a consciencialização dos futuros arquitectos é o mais importante na sua formação. “Pude colaborar de perto com várias pessoas envolvidas nesta área, nomeadamente com professores e alunos da Faculdade de Arquitectura da Universidade Agostinho Neto e da Universidade Lusíada. Sinto que tem havido uma grande vontade em levar temas ligados à arquitectura social para o ensino. É importante consciencializar os futuros arquitectos do país sobre as metodologias participativas que possam dialogar com os habitantes que são, igualmente, utentes que irão usufruir do seu trabalho. Isto está a acontecer e, por isso, estou bastante satisfeito com caminho percorrido até agora”.

O prémio, as exposições e o regresso à Chicala
Apesar de nunca ter equacionado ser vencedor do Prémio Távora, Moreira manteve a esperança em estar entre os finalistas. O facto de os últimos vencedores do prémio terem sido investigadores era um dado que jogava a seu favor. “Quando fiz a proposta sabia que era forte e coerente. No entanto, a Cristina Salvador tinha sido a vencedora da edição do ano passado e o seu trabalho incidia sobre o deserto do Namibe, também em Angola. Pensei que, por uma questão de diversidade, o júri não escolhesse o meu projecto como vencedor da competição”, justifica.

Ainda no âmbito deste projecto, Paulo Moreira apresentou, recentemente, a exposição “A Chicala não é um bairro pequeno” a que associou o lançamento de um livro. Um trabalho que surgiu através de um convite de uma galeria no Porto e outra em Londres. “É a prova que, cada vez mais, o mundo está atento e quer saber o que se passa em Angola”, afirma.

Quanto ao livro, o arquitecto explica que a obra aborda as mais diversas temáticas sociais do país. “Temos o kuduro e a sua relação com a sociedade, tenho um texto de uma antropóloga, outro excerto escrito por um geógrafo… A exposição e o livro são um aglomerado de contributos de vários estudiosos interessados em diversas áreas de análise da cidade de Luanda”, conta.

A próxima viagem a Luanda será para complementar o trabalho até aqui realizado. Agora, o olhar vai estar mais virado para “edifícios de uso público, como igrejas, escolas, parques infantis, entre outros, para perceber de que forma o bairro está servido”, diz Paulo Moreira.

A finalizar, o arquitecto revela uma das suas prioridades neste seu regresso a Luanda. “Irei dialogar com as autoridades locais, de forma a mostrar a adesão que temos tido por parte das universidades, até porque seria benéfico termos estudantes a colaborar com as gentes do bairro. Queremos celebrar os aspectos positivos da Chicala!”.

Fonte: África Today

Funco" - Habitação tradicional difundida nas ilhas de Santiago, Fogo e Maio, com origem na África Continental, cuja construção é em pedra na forma circular com cobertura cónica em palha e sem divisórias internas.